Porque é que temos todos de gostar do Natal?


Todos os anos por volta de novembro instala-se uma espécie de contagem decrescente emocional coletiva. As luzes acendem-se, as playlists repetem tradições, os anúncios prometem reencontros perfeitos e de repente, parece que existe uma regra silenciosa que nos diz que é obrigatório gostar do Natal. Mas será que todos gostamos desta época que cada vez inicia mais cedo? 

A verdade é que o Natal se transformou para muitos numa época de expetativas quase coreografadas, onde se espera que todos sejamos felizes, gratos, generosos, disponíveis, abnegados, grandes consumidores mestres do dar e receber. Espera-se convivência, família unida, mesa farta, lembranças nostálgicas, abraços sorrisos, amor, partilha. Mas será que é mesmo assim?  A realidade raramente acompanha o guião, pois se existem pessoas a quem o Natal como uma celebração calorosa lhes aquece o coração, existem também outras que o vivem como um relembrar das ausências, como um momento de tensões familiares, como uma altura de dificuldades financeiras, de confronto com relações frágeis, de solidão adensada pela quadra natalícia, de um cansaço emocional acumulado, de fadiga de todo o ano. Mesmo assim, a pressão social é enorme: Então, mas não gostas do Natal? Não compreendo quem não gosta do Natal? 

A pergunta esconde uma ideia problemática como se tivesse de existir uma forma certa de sentir. E não ! Na verdade não existe! O Natal, tal como qualquer outra data cultural não é universalmente vivida, nem universalmente querida, é uma construção social. E como todas as construções sociais é filtrado pela experiência individual. Forçar entusiasmo não torna ninguém mais feliz. Pelo contrário, pode gerar culpa, frustração e uma sensação de inadequação. A psicologia lembra-nos que devemos validar as emoções, mesmo as desconfortáveis, para o nosso bem-estar. Aceitar que podemos sentir alegria, mas também melancolia, entusiasmo, mas também vontade de pausa, afeto, mas também distância, tristeza, ou falta de amor, não faz de nós menos pessoas. Não gostar do Natal não é uma falha, é apenas uma forma de sentir e ser humano. 

Lembrem-se que mais importante que gostar do Natal é perceber o que a pessoa precisa e perguntar sem medos : O que precisas nesta altura do ano? Talvez um abraço, silêncio ou companhia, ou simplesmente uma rotina normal, alguns docinho ou se calhar simplificar, desligar, redefinir tradições, ou até quebrá-las.

Gostar ou não gostar do Natal não devia ser obrigação cultural. Devia ser uma escolha livre, tão legítima quanto qualquer outra. A época pode continuar a ser um espaço de encontro, não necessariamente com a família mas consigo próprio e com aquilo que faz sentido para cada um de nós, um espaço de pausa de descanso simplesmente.

Porque no fundo, o "espírito do Natal" não deveria ser imposto, deveria ser sentido, ou não,  e está tudo bem.


Natal 2025 por Ana Filipa Silva


Comentários

Mensagens populares